25th
Sampler Augusto de Campos 1
Não. Nem o MANIFESTO ANTROPÓFAGO nem a REVISTA DE ANTROPOFAGIA se parecem com os seus antecessores picabianos, por mais que os bandeirinhas da nossa crítica judicativa queiram pilhar Oswald em impedimento. Como diz Décio Pignatari: “Toda vez que vem à tona, o cadáver de Oswald de Andrade assusta. E sempre aparece um prático audaz disposto a conjurar o cachopo minaz.” Mas como observou Benedito Nunes, na lúcida série de artigos O Modernismo e as Vanguardas (Acerca do Canibalismo Literário), em que pulveriza o auto-de-fé de um dos martins-pescadores da nossa crítica literária, que tentava reduzir mecanicamente as matrizes do “canibal” dada-futurista a “antropofagia” brasileira: “a imagem do canibal estava no ar. Por isso quem se aventure a estabelecer os antecedentes literários privilegiados que ela teve, será obrigado a recuar de autor, indefinidamente.” O próprio Benedito Nunes cita, como exemplo, Alfred Jarry e os Almanaques do Père Ubu, “um dos quais registra guloseimas para os amateurs anthropophages”. Do mesmo Jarry, eu lembraria um texto talvez ainda mais explícito: o artigo Anthropophagie, que é de 1902, e do qual extraí uma das epígrafes deste estudo. Depois de analisar as dimensões da Antropofagia na concepção de Oswald de Andrade, assim conclui Benedito Nunes: “A imagem oswaldiana do antropófago e o conceito respectivo de assimilação subordinam-se, portanto, a uma forma de concepção que os vários canibalismos literários da época reunidos não podem preencher.”
Oswald, de resto, clarificando o seu pensamento, distinguiu, em A Crise da Filosofia Messiânica, a antropofagia ritual do mero canibalismo (antropofagia por gula ou fome): “A antropofagia ritual é assimilada por Homero entre os gregos e segundo a documentação do escritor argentino Blanco Villalta, foi encontrada na América entre os povos que haviam atingido uma elevada cultura - Asteca, Maias, Incas. Na expressão de Colombo, comian los hombres. Não o faziam porém, por gula ou por fome. Tratava-se de um rito que, encontrado também nas outras partes do globo, dá a idéia de exprimir um modo de pensar, uma visão do mundo, que caracterizou certa fase primitiva de toda a humanidade. Considerada assim, como weltanschauung, mal se presta à interpretação materialista e imoral que dela fizeram os jesuítas e colonizadores. Antes pertence como ato religioso ao rico mundo espiritual do homem primitivo. Contrapõe-se, em seu sentido harmônico e comuniaI, ao canibalismo que vem a ser a antropofagia por gula e também a antropofagia por fome, conhecida através da crônica das cidades sitiadas e dos viajantes perdidos. A operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é a da transformação do tabu em totem. Do valor oposto, ao valor favorável. A vida é devoração pura. Nesse devorar que ameaça a cada minuto a existência humana, cabe ao homem totemizar o tabu.”
Em matéria de precursões, mais intrigante é constatar que a poesia “antropófaga”, na base do Indianismo às avessas idealizado por Oswald já a praticava, em temas e formas, cinqüenta anos antes, um outro Sousa Andrade - o maranhense Sousândrade -, que no Canto II do Guesa (1874) tem coisas como esta:
(Antropófago HUMÁUA a grandes brados)
- Sonhos, flores e frutos,
Chamas do urucari!
Já se fez cai-a-ré,
Jacaré!
Viva Jurupari! (Escuridão. Silêncio)
A observação não escapou a Edgard Cavalheiro, que intitulou um seu artigo sobre Sousândrade, de 1957: O Antropófago do Romantismo. O que vem confirmar a vocação autônoma da antropofagia brasileira - a sua congenialidade, como diria Antonio Candido - relativamente às concepções européias.
Sousândrade. Eis aí um autêntico precursor. Isso, sem esquecer o conselho de Borges: “No vocabulário crítico, a palavra precursor é indispensável, mas teríamos de purificá-la de toda a conotação polêmica ou de rivalidade. A verdade é que cada escritor cria os seus precursores. A sua obra modifica a nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro.”
Em A Marcha das Utopias e A Crise da Filosofia Messiânica, na década de 50, Oswald procura dar mais consistência às suas idéias em torno da Antropofagia, vista como “uma filosofia do primitivo tecnizado”. Fundindo observações colhidas em vários autores, mas principalmente em Montaigne (“De Canibalis”), Nietzsche, Marx e Freud, redimensionados pelas teses de Bachofen sobre o Matriarcado, cria a sua própria Utopia de caráter social (“No fundo de cada Utopia não há somente um sonho, há também um protesto”).
Imaginava o poeta que as sociedades primitivas seriam capazes de oferecer modelos de comportamento social mais adequado à reintegração do homem no pleno gozo do ócio a ser propiciado pela civilização tecnológica. Para Oswald, o ócio a que todo homem teria direito fora desapropriado pelos poderosos e se perdera entre o sacerdócio (ócio sagrado) e o negócio (negação do ócio). Para recuperá-lo, propunha a incorporação do homem natural, livre das repressões da sociedade civilizada.
A formulação essencial do homem como problema e como realidade era capsulada neste esquema dialético: 1.º termo: tese - o homem natural; 2.º termo: antítese - o homem civilizado; 3.º termo: síntese - o homem natural tecnizado. A humanidade teria estagnado no segundo estágio, que constitui a negação do próprio ser humano, e no qual fora precipitada pela cultura “messiânica”.
Contra a cultura “messiânica”, repressiva, fundada na autoridade paterna, na propriedade privada e no Estado, advogava a cultura “antropofágica”, correspondente à sociedade matriarcal e sem classes, ou sem Estado, que deveria surgir, com o progresso tecnológico, para a devolução do homem à liberdade original, numa nova Idade de Ouro. Conotação importante derivada do conceito de “antropofagia” oswaldiano é a idéia da “devoração cultural” das técnicas e informações dos países superdesenvolvidos, para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em “produto de exportação” (da mesma forma que o antropófago devorava o inimigo para adquirir as suas qualidades). Atitude crítica, posta em prática por Oswald, que se alimentou da cultura européia para gerar suas próprias e desconcertantes criações, contestadoras dessa mesma cultura.
Tudo somado, o grande pecado de Oswald parece mesmo o de ter escrito em português. Tivesse ele escrito em inglês ou francês, quem sabe até em espanhol, e a sua Antropofagia já teria sido entronizada na constelação de idéias de pensadores tão originais e inortodoxos como McLuhan, Buckminster Fuller (Utopia or Oblivion - a utopia tecnológica - mais uma contribuição para a marcha das utopias?), John Cage (Diário: Como melhorar o mundo) ou Norman O. Brown, que em Love’s Body (1966) ressuscita os temas do canibalismo freudiano e do matriarcado de Bachofen. Pensadores da América, todos eles, por sinal.
A Antropofagia, que - como disse Oswald - “salvou o sentido do modernismo”, é também a única filosofia original brasileira e, sob alguns aspectos, o mais radical dos movimentos artísticos que produzimos. Por isso é da maior importância que se ilumine o “caminho percorrido”, no qual a REVISTA DE ANTROPOFAGIA é etapa indispensável. Ilhado pela ignorância e pela incompreensão, Oswald parecia ter perdido a batalha. “Venceu o sistema de Babilônia e o garção de costeleta”, chegou a escrever. Mas ele ressuscitou, nos últimos anos, para nutrir o impulso das novas gerações. Tabu até ontem, hoje totem. No necessário banquete totêmico não devemos, porém, comemorar, mas comer a revista. Como ele queria. SOMOS ANTROPÓFAGOS.
São Paulo, 1975.